[Amor] Parte II – Conformismo

A cama. É sempre onde começa e termina qualquer coisa, para qualquer pessoa no mundo. Antes de dormir, ela pode ser sua amiga ou inimiga, tudo depende da intensidade dos seus pensamentos. Dormindo, ela pode te trair. Ao acordar, ela pode trazer todos os pensamentos que você tentou esconder a noite toda.

Foi lá onde tudo começou. Tentei me desvencilhar de milhares de pensamentos, mas meu cérebro se tornou um grande parque de diversões para a imaginação. A cama já não me queria mais ali e tentava a todo custo me expulsar. Meu espírito, minha alma e minha aura estavam pesadas. Nem ela e nem eu podíamos mais suportar o peso.

Saí dela e fui me deitar sobre quem merecia segurar tantas toneladas sentimentais, você. Deixei que brincasse em cada atração do parque de diversões em minha mente, até que se enjoasse e finalmente vomitasse tudo o que eu precisava descobrir para voltar tranquilamente para a minha cama.

A essa altura o conformismo já me consolava. Não havia mais nada que eu poderia fazer a não ser conviver com o cheiro da merda que você deixou pela casa. Por mais que eu limpe as fezes, o cheiro dela não vai nos abandonar.

Deixei que dissesse tudo o que você tinha para dizer, mas até então era só mais um amontoado de palavras. Elas não significavam nada para mim, para o meu conformismo e para a minha cama. Eu precisava da verdade. Por mais que eu estivesse conformado com tanto excremento, o cheiro me incomodaria para sempre.

O cheiro da merda se confundia com o da mentira, com o da confiança balançada, com o da relação estremecida. Eu sabia no que acreditar, mas não sabia em quem acreditar. Eu achava que sabia tudo, mas junto com o estrume, veio você me dizer que eu não sabia o suficiente para voltar para a cama.

Eu posso não saber de tudo, mas sei o suficiente para ler suas expressões. Sei ler a verdade pelo jeito que você olha e a mentira pelo jeito que os músculos da sua face se contraem.

Cada palavra que você diz sem ter certeza flexiona uma parte do seu rosto que só eu posso ver. A não ser que o seu discurso tenha sido ensaiado em frente a um espelho, a história nunca será fidedigna. A mentira e a omissão tendem a deixar seu rosto cada vez mais moribundo e o silêncio que paira no ar faz com que eu escute o seu coração batendo. Eu não sei de tudo, mas seu corpo sabe. E meu corpo sabe ler o seu.

Você não sabe o que eu sei, então mentir ou omitir não são opções. A mentira e a omissão são medidas paliativas. Ambas estão escritas em cada movimento involuntário de sua boca, sobrancelhas e mãos inquietas. A verdade é a sua única aliada. A verdade é a única coisa que pode te matar.

Voltei para a cama, conformado, com a certeza de que a verdade, a razão e a prudência tomariam conta deste sentimento que alguns classificam como amor, e agora eu classifico como não-sei.

[Amor] Parte I – Desilusão

Abri os olhos no meio da noite, dentro de um pesadelo e não consegui mais dormir sem que o sonho ruim tomasse conta da minha mente. Ao fechar os olhos, me vejo deitado na cama, sozinho, até você surgir nela. Me abraça forte, me beija com força e não consigo me desvencilhar. Ao olhar novamente, vejo que você é um cadáver, podre, me agarrando. Tento me soltar, mas o cadáver é mais forte. Quando finalmente consigo saltar da cama, você, o cadáver, se torna uma cobra verde, como se houvesse esperança desse pesadelo ser algo bom. Corro para a cozinha, e você, o cadáver, a cobra, vem atrás, tentando me atacar. Crio coragem, consigo finalmente acertar a sua cabeça, e seu corpo deslizante torna-se um inseto, entrando nos rejuntes do piso e sumindo, como se estivesse dizendo que por mais que eu te mate, você saberá por onde ando.

Eu acordo novamente. Você, o cadáver, a cobra, o inseto não estão mais lá. Mas o pesadelo continua. Minha cabeça agora só funciona com flashs de algo que jamais vivi, mas que você viveu e que eu descobri, da forma mais frágil e ousada possível. Vejo o branco encardido das paredes do quarto, o edredom que você usa de colcha jogado entre seis pés. Ouço o som das vozes guturais. Vejo movimentos que não se completam, pois minha mente não deixa. Vejo sangue no lençol, proveniente do coração que você rompeu, o meu.

Me vejo sentado nesta mesma cama, tão confortável e asquerosa, discutindo sobre quem você é. E quem é você, senão a pessoa podre que fez questão de desfazer toda a imagem imaculada que eu tinha sobre ti. Não te reconheço. Não reconheço a tranquilidade na sua voz, na sua explicação, na sua aura. Não reconheço os argumentos, as justificativas, os motivos. Não sei com quem estou conversando, a não ser mais um, que fez questão de ser ninguém.

A fumaça do cigarro invade o ambiente, contamina as roupas, o ar e eu imploro para que ela contamine os meus pulmões instantaneamente, até que ele entre em metástase e eu finalmente encontre um sentido na vida através da morte. A indignação me contamina e a minha vontade, além de morrer, é de quebrar todos os móveis, derrubar a garrafa de vodka da escrivaninha, acender mais um cigarro e deixar tudo explodir. Pena que a vodka não tem esse poder. Penso em quebrar a garrafa e enfiar a metade dela em sua jugular, até que você implore para que um vórtice temporal se abra e nada daquilo tenha acontecido. Contudo, continuo deitado na cama imunda, olhando para o teto, com o olhar perdido, assim como o meu futuro.

Dilacerado

Foi grotesco. Alguém entrou com uma falsa permissão dentro de mim e dilacerou alguns órgãos internos. Não vou dizer que o coração foi um dos órgãos comprometidos, pois nem tenho certeza de que ele ainda está lá.

Anteriormente, em outra fase, eu diria que todos os meus órgãos estavam intactos e em perfeita harmonia. Era um prazer sentir desde o pulmão até o pâncreas. E sim, ele ainda estava ali, o tal do coração. Ele funcionava muito bem, diga-se de passagem. Me dava muito mais força que o cérebro, me mantinha vivo, alegre, venturoso, com a plena certeza de que poderia vencer qualquer coisa. Meu coração, além da sua função vital, era a única coisa que me mantinha vivo.

Acreditava piamente que este coração era uma dádiva divina, um presente de algum Deus por eu ter me comportado tão bem todos esses anos,  por ter sido quase exemplar. Um coração amável, servil, honesto, afável e tantas outras qualidades e valores que dificilmente encontramos em um coração. Um coração tão bonito, que causava inveja. Bem, até então.

Abriram minha boca enquanto eu vivia e vomitaram lá dentro. Deixaram que o vômito escorresse até chegar ao coração. Contaminaram com náusea os átrios e ventrículos. Escarraram em cada veia que bombeava o sangue para o meu corpo. Tornaram tudo aquilo que eu acreditei ter um dia em podre, fétido, imundo. Meu coração ficou praticamente inutilizado, a não ser pelo fato dele me manter de pé, mas não sei até onde posso me considerar vivo.

O coração, até então uma dádiva, se tornou uma espécie de vírus e fez o favor de acabar com o restante dos órgãos. Talvez por mágoa,  por todos eles estarem incrivelmente bons e me mantendo da forma mais etérea que podiam.

Hoje, eu não sei mais o que há aqui dentro. Sei que existe angustia e insegurança, nada além disso. Há quem diga que um dos órgãos não foi afetado e que somente ele pode me curar neste momento: o cérebro. Não sei se devo acreditar que o coração tem cura. Mas meu encéfalo me condiciona a acreditar em algo que só o tempo vai dizer.

E como acreditar que o tempo, que nem saber falar, pode me dizer algo?

Não Me Importam as Flores

Às vezes fico mudo, do nada, mas é porque quando estamos juntos um universo paralelo vive em minha cabeça, e são coisas que talvez você não entenda, porque nem eu mesmo entendo.

As ondas do seu cabelo fazendo voltas perfeitas em torno dos meus dedos enquanto falamos de problemas. Seu abraço é mais quente do que qualquer edredom e por isso fica ainda mais maravilhoso dormir com você no inverno. Todos os dias são como primaveras na sua cama. Não, não tem flores, não ligo muito para elas, ligo para você. O clima é sempre aconchegante. É convidativo e saboroso deitar ali, do seu lado, para olhar o teto e não ver nada, a não ser esse monte de pensamentos que só tem nexo na minha cabeça, mas nenhum se eu começar a te contar. Por exemplo, não posso virar e começar a explicar que o seu cheiro é doce como caramelo, com um toque de pele e amaciante (você sempre exagera na dose quando vai lavar suas roupas). Se eu falar disso você vai rir. Também riria se eu te contasse que apesar de tanta gente linda a minha volta (dizem, nunca percebi), só tenho olhos pra você. Aliás, eu e mais um monte de gente tem olhos pra você. Pudera, é muita beleza de uma vez só, tipo um jardim, onde as flores mais coloridas se destacam das outras. Você se destaca, mas não gosto de flores, gosto de você. E quando você abre um sorriso, sabe? Então, eu mesmo não sei, porque não vejo dentes, mas vejo uma energia muito grande vindo dali. Deve ser porque é um sorriso sincero, sem medo de ter feijão no dente ou mau hálito. Viu? Não posso te contar isso também, vai pensar besteira.

Pensando bem, pensando nisso que pensei, tenho uma bela explicação para ficar mudo e você nunca entender o porquê. Sou dono das suas feições, movimentos e de tudo que você não pode ver. Ainda bem, não quero te devolver nada disso, nunca mais. Meu. É meu.

Não Preciso

Não preciso te acordar ou ser acordado todos os dias com uma SMS para que saibas o que eu amo, o que eu amava, o que amarei ou o que deixei de amar em você. Não preciso colocar uma bandeja em cima do seu colo com suas guloseimas prediletas enquanto te dou um beijinho na testa e saio para trabalhar. Não preciso deixar um bilhete na geladeira com um “Eu Te Amo” escrito com caneta Bic vermelha, preso com um imã de joaninha feito de biscuit, não preciso. Não preciso te ligar na hora do meu almoço apra falar que comi salmão e finalmente aprendi a usar o hashi, e nem que quase fui atropelado porque atravessei com o farol verde aberto. Eu também não preciso te mandar e-mails todos os dias perguntando o que você fará no final do dia, pois sei que em todos os finais de dia está nos seus planos me encontrar. Não preciso perguntar se quer ir ao cinema ver uma nova comédia romântica super clichê, a qual não prestaremos atenção no enredo, pois estaremos preocupados em falar como o ator ‘X’ envelheceu e como a atriz ‘Y’ engordou. Não preciso te ligar nos finais de semana para saber se você está com saudades, pois eu sei que está (já que também estou), e morri de ansiedade roendo todas as minhas unhas enquanto aguardava uma ligação sua, a mesma que eu acabei fazendo, pois nunca soube esperar. Não preciso perguntar se quer ir comigo trocar uma roupa no shopping, pois mesmo cansado de me ver trocar tudo o que compro e fazer uma cara emburrada, sei que você fica feliz enquanto fico provando roupas na sua frente. Não preciso pedir para dormir de conchinha comigo, pois antes d’eu pensar na hipótese, você já deixou a cama arrumada para que caibamos nós dois. Não preciso combinar de irmos ao parque num domingo ensolarado para tirarmos fotos rolando na grama, pois você sempre aparece com a câmera quando o dia mal amanheceu. Não preciso de filmes em noites chuvosas com pipoca e edredom, nem que você cuide de mim quando estou com a sinusite atacada ou a enxaqueca não quer passar. Não preciso de passeios com balões coloridos, sorvetes de vários sabores, balas de goma ou jujubas. Não preciso mesmo. Não preciso de nada disso. Não precisa.
Eu não preciso te escrever um texto bonito para que você saiba o que eu sinto, muito menos gritar aos quatro ventos o que eu deixei de sentir. Eu preciso apenas de uma coisa: não ter você, pois só assim saberei do que preciso.

A História da Condescendência

Estava ali, sentada no canto de um imenso banco de uma praça, sozinha, sem ninguém. Jogava migalhas aos pombos – para alimentá-los, para deixar a cena mais bonita – enquanto as pessoas passavam. Ela observava. As pessoas vestiam roupas iguais, tinham fisionomia semelhante, pareciam da mesma família. As pessoas não pareciam bem. Andavam apressadas, olhando para baixo, para o nada, para o próprio nariz. Embora todas fossem parecidas, nenhuma olhava para a outra. Pareciam apáticas. Pareciam egoístas. Pareciam muitas coisas, mas a Condescendência não podia afirmar com toda certeza o que elas eram, apenas o que elas não eram: parecidas com Ela.

Ouvidos de Presente

O que falo não faz sentido, ou faz, e não querem ouvir. É como se arrancassem os tímpanos e colocassem dentro de um copo d’água, como uma dentadura cansada de mastigar, ouvidos cansados de ouvir, mastigando minhas palavras.

E eu digo inúmeras coisas e é exatamente isso que você ouve: inúmeras, coisas. Nada junto, tudo separado.

Não falo outro idioma, mas você entende apenas o que quer entender, ou seja, quando falamos de você. Não gostaria de ser egoísta, mas ao ponto de falar só de você, é um egoísmo do avesso.

Não me dê ouvidos. Eu prefiro acreditar que você leva isso ao pé da letra e não quer arrancar as orelhas e colocá-las numa caixinha de presente.

Trincheira

Não posso ver o alto, nem o baixo, mas me vejo e me encontro num caminho de terra vermelha, sem saber da dor do outro, sem saber.

Só estou ali pelo mesmo motivo que todo mundo, por querer, sem querer, apenas uma luta e uma guerra. Só querem sair dela vivo. Só queria sair dela ileso.

Aponto para um ponto e não vejo o inimigo – que eu sei quem é – e atiro. Sabe-se lá Deus para que lado vai a bala, mas que ela acerte aonde deve acertar. Particularmente prefiro no peito, pois na cabeça eu deixo para mim.

Em meio a esse abrigo forçado, eu não me desespero, eu me encontro. Não quero usar a arma, quero o conforto do espaço estreito que eu possa me apoiar sem ser pego. Não vou fugir. Vou para o refúgio no fim da noite pensar na vida que acertei, mas que não foi em cheio.

De toda a beleza que eu posso encontrar, encontro numa trincheira.

Black Book

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A tensão.
Me dirija a palavra apenas obrigatoriamente,
mas só solte palavras aleatórias de conforto.
Atenção.

Deste gosto,
Não elejo por má vontade. Seleciono por boa.
Desgosto.

Marcação de passos,
Para que haja sincronia. E que só fiquem as que eu desejo.
As marcas. As minhas.

Não / Sim

Cadeira de madeira no jardim da piscina,
memórias que não são minhas.
Histórias retóricas que não quero saber, mas sei,
enquanto aproveito para não saber de mim.

Aí descubro, de mim, fragilidades que não tenho,
mas aceito, reeduco e tento.

Desespero em saber que não tenho nome.
Pulo etapas, corto processos e tudo fica bem.

Encontro a beleza no erro e feiura na perfeição. Não.
É pra mim. Não, sim.