Anti-Edem

Lembro-me bem de nós dois andando de braços dados, como se fossemos um vínculo, como um só. O sorriso despendido cortava seu rosto, torneado pelos detalhes óbvios que faziam dele único. Eu gostava de te ver sorrir, pois eu não te conhecia de verdade.

Tão sujo quanto o pior dos assassinatos, você conseguiu matar qualquer coisa vermelha e palpitante que existia dentro de mim. Tornou-se tão desprezível quanto a dor, a angústia, a vingança e a ânsia, e por um momento eu me atreveria a personificá-lo com esses adjetivos, se o seu próprio nome não fosse pior que todos eles juntos. Sua mediocridade ultrapassou dos pontos comuns de um ser humano, pois nem o mais infeliz desta raça conseguiria ser tão pútrido quanto o que você se tornou. E eu ainda gostaria da gritar a frase mais clichê do universo, que você é um monstro, mas certamente eles seriam apenas bichinhos de pelúcia perto de ti, que sei que tem vísceras, mas não sei se tem coração.

Condenável a ponto de se auto-condenar, eu gostaria de olhar no fundo dos teus olhos e falar com toda a sinceridade do mundo o que penso, mas não teria mais essa coragem. Seus olhos não terão brilho, serão ocres e sem vida, e duvido até que eles ainda tenham uma iris, pois se eu fosse ela, eu já teria ido embora para privar a minha índole. Índole, é algo que você jamais entenderá o significado por mais que você leia no dicionário, pois essa palavra não é apenas literal, mas sim semântica, e essa você perdeu na primeira parada que teve oportunidade. Suas paradas pararão sua vida, não socialmente, mas psicologicamente, espiritualmente.

Sinceridade, nitidez, limpidez e simplicidade. É essa a impressão que todos temos de você, até levarmos um tiro eterno nas têmporas. Já confundi minha alma com a sua, já ousei em chamá-la de uma só. Hoje, só de imaginar que minha alma e a sua seriam a mesma, preferia nem ter mais vida, pois para uma alma tão imunda quanto a sua nem o inferno seria suficiente, ele seria doce e categórico para ti e o vestígio de alma que ainda existe no seu corpo.

E se eu pudesse te dar um nome sequer, eu te daria o nome de vazio. Vazio, é a única coisa que ainda segue coerente dentro de ti, e vou prefirir falar para todo o universo que você é apenas e essencialmente vazio. Do vazio surgiram tantas coisas, boas e ruins, e do vazio você, o seu melhor, o seu equilibrio torpe, sua contradição mental surgiram. É vazio porque é oco, e o que oco não tem nada dentro, nada além de uma casca, nada além de nada.

O pecado às vezes me domina a ponto de que eu cometa inúmeras mortes mentais. O pecado nem se assemelha ao que você faz. Pecar é agir dentro do prazer do errado, possuindo a consciência de dois polos. Você não saberia discernir o que é certo, o que é errado, e o que é você. Se o diabo já foi chamado de cobra, eu não poderia te chamar de diabo, pois ofenderia a cobra.

No amanhã eu encontrarei contigo, e terei certeza de estar na frente de um espelho ao inverso. A calmaria e a calamidade não convivem no mesmo espaço, mas compartilham o mesmo tempo. Por isso, eu sinto infelicidade, eu sinto pena, eu sinto dó, e nenhum desses sentimentos à você, que guiou as suas escolhas ao vácuo. Tenho isso por mim, por ter me atrevido a ser algo seu. Eu espero que um dia eu possa me perdoar.