Os Outros: Eu

Bruno Ernica

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mario de Sá Carneiro – Lisboa, fevereiro de 1914

Estou entre duas metades de mim.

Não sou alguém com vontades próprias, desejos únicos, impulsos ou premeditações. Apenas tenho aspirações humanas que me guiam a certos caminhos e que geram desentendimento. Eu. Eu não sou eu.

Não estou buscando as respostas dos porquês que eu não tenho, nem estou tentando enganar ninguém enquanto finjo que compreendo algo. Apenas observo o que se passa. Eu. Eu não sou outro.

Entre as minhas aspirações humanas e as respostas das perguntas que eu nunca me fiz, encontro-me em um meio vago. As dúvidas parecem surgir do vão que sobra entre quem eu de fato sou e de quem eu de fato seria. Sou qualquer coisa de intermédio, o bem e o mal, o dia e a noite – que permanecem entre abismos – mas neste abismo eu só encontro comigo.

Nestas compreensões que me intermediam, vivo uma conexão tediosa. A busca infundada para saber de que lado de mim estou, gera desconexão em minha mente, e só faz com que eu me confunda. Os outros também são Eu.

Vago entre inúmeras pessoas, aqui dentro, mas não encontro uma com que eu me identifique. A relação que tenho com elas é tão enfadonha que, embora eu vá de um para outro, continuo na mesmice.

Posso não saber quem sou, mas sei quem não sou e o que quero: ser Eu, plenamente.

  • http://www.twitter.com/carollinha Caroline F.

    rapaz, congratulações.
    esse texto me veio na hora que eu mais precisava.
    :)