UC1 – 117 / 11h10 (Pai)

Era uma bela e incomum manhã de outono. Uma brisa fria batia em meu rosto, junto com o sol radiante, e o céu de multitons de azul, sem ao menos uma nuvem no céu. O dia era perfeito para um dia feliz. Era.

A manhã se convertia em um quarto de hospital, divido em seis leitos, seis vidas, e uma delas, me pertencia. Um pedaço de mim se mantia em estado delicado, com aparelhos ligados ao corpo, uma inalação somente com água, e duas bolsas de soro, que fingiam derramar a vida de gota em gota. O pedaço que permanecia dentro daquele quarto era parte de meu alicerce, este que já estava debilitado por ser apenas, ao invés de dois, somente um.

A cena era chocante, e triste. Meu alicerce buscava resgatá-lo, sem sucesso. Então, tal pedaço, com seus olhos semicerrados pareceram me identificar. Os olhos que quase fechavam, se abriram de forma rápida, por cerca de um segundo, e me olharam dentro d’alma. O segundo se transformou em um gigantesco flashback. Os grandes e arregalados olhos verdes me levaram por um mundo que eu já havia vivido, mas havia esquecido. Fui até minha infância, onde ele me vestia com o meu bom e simples uniforme verde e branco da pré-escola; que me acordava pelas manhãs; me levava ao cinema, fazia brincadeiras. Deitava ao meu lado na cama até eu pegar no sono, quando tinha medo do escuro. Cantava músicas sertanejas, ou mesmo desconexas, com ritmos próprios produzidos pela boca, e que ele mesmo inventava; contava histórias, dava broncas, aconselhava sutilmente; era bravo e calmo ao mesmo tempo. Aquele olhar me serviu como máquina do tempo, me fazendo pensar e repensar em cada segundo bom que eu já havia vivido ao seu lado, esquecendo a cena que eu vivia naquele segundo. Ainda com tempo, eu buscava encaixar aquele pedaço a mim, dizendo tudo que estava engasgado, soltando poucas palavras que a vergonha idiota não me permitia dizer ao longo dos anos. Havia tempo de dizer. Havia tempo de escutar. Havia tempo de responder.

Meu pedaço deixava claro que lutava contra o tempo, contra os batimentos cardíacos, contra a luz divina que descia para buscá-lo. Ele esperou, por longas horas, que toda a família se reunisse a sua volta, que lhe dessem o último e penoso adeus, e que ele pudesse lavar a alma naquele leito de hospital. O mundo se fechou em quatro paredes, e em quatro almas entrelaçadas.

Uma enfermeira entra no quarto, e pede licença por cinco minutos, enquanto trocava os pacientes dos demais cinco leitos. Foi a deixa do meu pedaço. Já havia se despedido, não havia necessidade de vermos sua partida. Viramos as costas e ele se despediu do mundo. Os médicos correm, como se buscassem resgatar tal vida, aquela que já estava cansada de viver neste plano. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Nada que os médicos fizessem, o trariam de volta como meu pedaço já fora um dia.

Ele fechou os lindos olhos verdes, para sempre. Não precisaria mais deles. Agora seus olhos eram os da alma, e com estes, ele veria o meu e outros mundos, com outros olhos.

  • Aurea Fidelis

    É incrível o poder das palavras. Lendo hoje, amanhã, ou daqui a alguns anos, sempre nos traz a sensação de estar ali, no presente momento, revivendo as velhas e talvez novas emoções. E eu admiro tanto a capacidade de alguns, em expor em palavras, o que talvez eu só consiga sentir.

    Aurea Fidelis

    • Bruno Ernica

      Pois é!
      Eu mesmo [ainda] não li o texto, pra não me emocionar!
      O poder das palavras é de fato incrível, ainda mais quando ele funciona!
      Obg Aurea! ;)

  • Andressa Oliveira

    Incrível, palavras… que fazem a gente sentir-se lá do seu lado. Que as ótimas lembranças também fiquem como tatuagem, pra sempre!

  • Jhohann Paul

    que lindo texto T.T to desidratando litros