Dilacerado

Foi grotesco. Alguém entrou com uma falsa permissão dentro de mim e dilacerou alguns órgãos internos. Não vou dizer que o coração foi um dos órgãos comprometidos, pois nem tenho certeza de que ele ainda está lá.

Anteriormente, em outra fase, eu diria que todos os meus órgãos estavam intactos e em perfeita harmonia. Era um prazer sentir desde o pulmão até o pâncreas. E sim, ele ainda estava ali, o tal do coração. Ele funcionava muito bem, diga-se de passagem. Me dava muito mais força que o cérebro, me mantinha vivo, alegre, venturoso, com a plena certeza de que poderia vencer qualquer coisa. Meu coração, além da sua função vital, era a única coisa que me mantinha vivo.

Acreditava piamente que este coração era uma dádiva divina, um presente de algum Deus por eu ter me comportado tão bem todos esses anos,  por ter sido quase exemplar. Um coração amável, servil, honesto, afável e tantas outras qualidades e valores que dificilmente encontramos em um coração. Um coração tão bonito, que causava inveja. Bem, até então.

Abriram minha boca enquanto eu vivia e vomitaram lá dentro. Deixaram que o vômito escorresse até chegar ao coração. Contaminaram com náusea os átrios e ventrículos. Escarraram em cada veia que bombeava o sangue para o meu corpo. Tornaram tudo aquilo que eu acreditei ter um dia em podre, fétido, imundo. Meu coração ficou praticamente inutilizado, a não ser pelo fato dele me manter de pé, mas não sei até onde posso me considerar vivo.

O coração, até então uma dádiva, se tornou uma espécie de vírus e fez o favor de acabar com o restante dos órgãos. Talvez por mágoa,  por todos eles estarem incrivelmente bons e me mantendo da forma mais etérea que podiam.

Hoje, eu não sei mais o que há aqui dentro. Sei que existe angustia e insegurança, nada além disso. Há quem diga que um dos órgãos não foi afetado e que somente ele pode me curar neste momento: o cérebro. Não sei se devo acreditar que o coração tem cura. Mas meu encéfalo me condiciona a acreditar em algo que só o tempo vai dizer.

E como acreditar que o tempo, que nem saber falar, pode me dizer algo?