[Amor] Parte I – Desilusão

Abri os olhos no meio da noite, dentro de um pesadelo e não consegui mais dormir sem que o sonho ruim tomasse conta da minha mente. Ao fechar os olhos, me vejo deitado na cama, sozinho, até você surgir nela. Me abraça forte, me beija com força e não consigo me desvencilhar. Ao olhar novamente, vejo que você é um cadáver, podre, me agarrando. Tento me soltar, mas o cadáver é mais forte. Quando finalmente consigo saltar da cama, você, o cadáver, se torna uma cobra verde, como se houvesse esperança desse pesadelo ser algo bom. Corro para a cozinha, e você, o cadáver, a cobra, vem atrás, tentando me atacar. Crio coragem, consigo finalmente acertar a sua cabeça, e seu corpo deslizante torna-se um inseto, entrando nos rejuntes do piso e sumindo, como se estivesse dizendo que por mais que eu te mate, você saberá por onde ando.

Eu acordo novamente. Você, o cadáver, a cobra, o inseto não estão mais lá. Mas o pesadelo continua. Minha cabeça agora só funciona com flashs de algo que jamais vivi, mas que você viveu e que eu descobri, da forma mais frágil e ousada possível. Vejo o branco encardido das paredes do quarto, o edredom que você usa de colcha jogado entre seis pés. Ouço o som das vozes guturais. Vejo movimentos que não se completam, pois minha mente não deixa. Vejo sangue no lençol, proveniente do coração que você rompeu, o meu.

Me vejo sentado nesta mesma cama, tão confortável e asquerosa, discutindo sobre quem você é. E quem é você, senão a pessoa podre que fez questão de desfazer toda a imagem imaculada que eu tinha sobre ti. Não te reconheço. Não reconheço a tranquilidade na sua voz, na sua explicação, na sua aura. Não reconheço os argumentos, as justificativas, os motivos. Não sei com quem estou conversando, a não ser mais um, que fez questão de ser ninguém.

A fumaça do cigarro invade o ambiente, contamina as roupas, o ar e eu imploro para que ela contamine os meus pulmões instantaneamente, até que ele entre em metástase e eu finalmente encontre um sentido na vida através da morte. A indignação me contamina e a minha vontade, além de morrer, é de quebrar todos os móveis, derrubar a garrafa de vodka da escrivaninha, acender mais um cigarro e deixar tudo explodir. Pena que a vodka não tem esse poder. Penso em quebrar a garrafa e enfiar a metade dela em sua jugular, até que você implore para que um vórtice temporal se abra e nada daquilo tenha acontecido. Contudo, continuo deitado na cama imunda, olhando para o teto, com o olhar perdido, assim como o meu futuro.

  • Lydia Falcão

    Incrível. Há exato 1 ano me sinto assim. Alguns momentos esse sentimento todo vem com mais força, às vezes mais fraco.. Mas ainda não foi embora. Obrigada (!) por traduzir tudo isso pra mim em palavras.