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Não Preciso

Não preciso te acordar ou ser acordado todos os dias com uma SMS para que saibas o que eu amo, o que eu amava, o que amarei ou o que deixei de amar em você. Não preciso colocar uma bandeja em cima do seu colo com suas guloseimas prediletas enquanto te dou um beijinho na testa e saio para trabalhar. Não preciso deixar um bilhete na geladeira com um “Eu Te Amo” escrito com caneta Bic vermelha, preso com um imã de joaninha feito de biscuit, não preciso. Não preciso te ligar na hora do meu almoço apra falar que comi salmão e finalmente aprendi a usar o hashi, e nem que quase fui atropelado porque atravessei com o farol verde aberto. Eu também não preciso te mandar e-mails todos os dias perguntando o que você fará no final do dia, pois sei que em todos os finais de dia está nos seus planos me encontrar. Não preciso perguntar se quer ir ao cinema ver uma nova comédia romântica super clichê, a qual não prestaremos atenção no enredo, pois estaremos preocupados em falar como o ator ‘X’ envelheceu e como a atriz ‘Y’ engordou. Não preciso te ligar nos finais de semana para saber se você está com saudades, pois eu sei que está (já que também estou), e morri de ansiedade roendo todas as minhas unhas enquanto aguardava uma ligação sua, a mesma que eu acabei fazendo, pois nunca soube esperar. Não preciso perguntar se quer ir comigo trocar uma roupa no shopping, pois mesmo cansado de me ver trocar tudo o que compro e fazer uma cara emburrada, sei que você fica feliz enquanto fico provando roupas na sua frente. Não preciso pedir para dormir de conchinha comigo, pois antes d’eu pensar na hipótese, você já deixou a cama arrumada para que caibamos nós dois. Não preciso combinar de irmos ao parque num domingo ensolarado para tirarmos fotos rolando na grama, pois você sempre aparece com a câmera quando o dia mal amanheceu. Não preciso de filmes em noites chuvosas com pipoca e edredom, nem que você cuide de mim quando estou com a sinusite atacada ou a enxaqueca não quer passar. Não preciso de passeios com balões coloridos, sorvetes de vários sabores, balas de goma ou jujubas. Não preciso mesmo. Não preciso de nada disso. Não precisa.
Eu não preciso te escrever um texto bonito para que você saiba o que eu sinto, muito menos gritar aos quatro ventos o que eu deixei de sentir. Eu preciso apenas de uma coisa: não ter você, pois só assim saberei do que preciso.

Ouvidos de Presente

O que falo não faz sentido, ou faz, e não querem ouvir. É como se arrancassem os tímpanos e colocassem dentro de um copo d’água, como uma dentadura cansada de mastigar, ouvidos cansados de ouvir, mastigando minhas palavras.

E eu digo inúmeras coisas e é exatamente isso que você ouve: inúmeras, coisas. Nada junto, tudo separado.

Não falo outro idioma, mas você entende apenas o que quer entender, ou seja, quando falamos de você. Não gostaria de ser egoísta, mas ao ponto de falar só de você, é um egoísmo do avesso.

Não me dê ouvidos. Eu prefiro acreditar que você leva isso ao pé da letra e não quer arrancar as orelhas e colocá-las numa caixinha de presente.

Trincheira

Não posso ver o alto, nem o baixo, mas me vejo e me encontro num caminho de terra vermelha, sem saber da dor do outro, sem saber.

Só estou ali pelo mesmo motivo que todo mundo, por querer, sem querer, apenas uma luta e uma guerra. Só querem sair dela vivo. Só queria sair dela ileso.

Aponto para um ponto e não vejo o inimigo – que eu sei quem é – e atiro. Sabe-se lá Deus para que lado vai a bala, mas que ela acerte aonde deve acertar. Particularmente prefiro no peito, pois na cabeça eu deixo para mim.

Em meio a esse abrigo forçado, eu não me desespero, eu me encontro. Não quero usar a arma, quero o conforto do espaço estreito que eu possa me apoiar sem ser pego. Não vou fugir. Vou para o refúgio no fim da noite pensar na vida que acertei, mas que não foi em cheio.

De toda a beleza que eu posso encontrar, encontro numa trincheira.

Os Outros: Eu

Bruno Ernica

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mario de Sá Carneiro – Lisboa, fevereiro de 1914

Estou entre duas metades de mim.

Não sou alguém com vontades próprias, desejos únicos, impulsos ou premeditações. Apenas tenho aspirações humanas que me guiam a certos caminhos e que geram desentendimento. Eu. Eu não sou eu.

Não estou buscando as respostas dos porquês que eu não tenho, nem estou tentando enganar ninguém enquanto finjo que compreendo algo. Apenas observo o que se passa. Eu. Eu não sou outro.

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