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Ouvidos de Presente

O que falo não faz sentido, ou faz, e não querem ouvir. É como se arrancassem os tímpanos e colocassem dentro de um copo d’água, como uma dentadura cansada de mastigar, ouvidos cansados de ouvir, mastigando minhas palavras.

E eu digo inúmeras coisas e é exatamente isso que você ouve: inúmeras, coisas. Nada junto, tudo separado.

Não falo outro idioma, mas você entende apenas o que quer entender, ou seja, quando falamos de você. Não gostaria de ser egoísta, mas ao ponto de falar só de você, é um egoísmo do avesso.

Não me dê ouvidos. Eu prefiro acreditar que você leva isso ao pé da letra e não quer arrancar as orelhas e colocá-las numa caixinha de presente.

Trincheira

Não posso ver o alto, nem o baixo, mas me vejo e me encontro num caminho de terra vermelha, sem saber da dor do outro, sem saber.

Só estou ali pelo mesmo motivo que todo mundo, por querer, sem querer, apenas uma luta e uma guerra. Só querem sair dela vivo. Só queria sair dela ileso.

Aponto para um ponto e não vejo o inimigo – que eu sei quem é – e atiro. Sabe-se lá Deus para que lado vai a bala, mas que ela acerte aonde deve acertar. Particularmente prefiro no peito, pois na cabeça eu deixo para mim.

Em meio a esse abrigo forçado, eu não me desespero, eu me encontro. Não quero usar a arma, quero o conforto do espaço estreito que eu possa me apoiar sem ser pego. Não vou fugir. Vou para o refúgio no fim da noite pensar na vida que acertei, mas que não foi em cheio.

De toda a beleza que eu posso encontrar, encontro numa trincheira.

Black Book

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A tensão.
Me dirija a palavra apenas obrigatoriamente,
mas só solte palavras aleatórias de conforto.
Atenção.

Deste gosto,
Não elejo por má vontade. Seleciono por boa.
Desgosto.

Marcação de passos,
Para que haja sincronia. E que só fiquem as que eu desejo.
As marcas. As minhas.

Leia Quatorze Vezes Antes de Entender

Bruno Érnica

Eu, por dentro da geometria de três lados internos e três externos

     apenas um embaixo,

Preso entre estrelas e flores artificiais e

Solto entre moedas e açúcar e

Consentido em frente a quinze polegadas e

Mantido em uma folha de papel marcada por caneta piloto. Não mais que isso.

 

Eu, por fora e sem geometria,

Forjado por pelos e pelo menos por

Mais e por menos por

Portas e porcas atitudes exploradas entre cores de flor de sakura.

 

Ambos, inconformidade e

Idade e misturas indiscriminadas e

Culpa e mentira, culpa e erros.

 

Surpresas antes de deitar. Deite-se antes do fim.

Antinatural

Bruno Ernica

Lajeado branco-encardido pela cor das quatro horas da manhã

seguido de nada vezes nada, aleatoriamente espetacular,

trotando em ferraduras de látex preto (detalhes em prata)

e a vida ficou mais bonita – assustadoramente mais bonita.

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Cento e sessenta caracteres multiplicados por, talvez, cento e vinte e dois,

combinações turvas de sensações de proximidade.

Nostalgia de coisas não vividas, fumo, espelhos,

uvas que amarram a boca, músicas, cascas, sentimento de não se vai.

­

Conversas desconexas tridimensionais, meia-noite.

Surpresas, vento gelado no rosto com gosto de couro.

Acabou a semana, com gosto de caramelo sem açúcar.

Acaba-se uma semana, e com ela o ciclo antinatural das afeições.